Uma das perguntas mais frequentes de quem opera Proxmox é também uma das mais desconfortáveis: "por que o nó reiniciou sozinho, sem ninguém pedir?" A resposta quase sempre é que o cluster funcionou exatamente como projetado. Aquele reinício não foi uma falha — foi um mecanismo de proteção agindo para evitar algo muito pior. Entender esse mecanismo é o que diferencia operar um cluster de conviver com ele.
O problema que o quórum existe para resolver
Imagine um cluster de quatro nós onde o switch falha e separa a rede em dois pares. Cada par vê dois nós vivos e dois mortos. Se cada lado agir por conta própria e ligar as VMs que "caíram", a mesma VM passa a rodar em dois lugares, escrevendo no mesmo storage. O resultado não é indisponibilidade — é corrupção de dado, que é irreversível e muito pior.
Esse cenário tem nome: split-brain. E o quórum é a regra que o impede. Só o grupo que tem a maioria dos votos pode tomar decisões. O outro lado, mesmo funcionando perfeitamente, precisa se calar.
Essa é a chave para entender todo o comportamento do cluster: perder quórum não significa estar quebrado. Significa não ter autoridade para agir.
Número de nós: por que ímpar importa
A maioria de um número par é frágil. Em quatro nós divididos ao meio, nenhum lado tem maioria e o cluster inteiro para. Em cinco nós divididos em três e dois, o lado de três continua operando.
| Nós | Votos p/ maioria | Falhas simultâneas toleradas | Observação |
|---|---|---|---|
| 2 | 2 | 0 | Exige QDevice para ser viável |
| 3 | 2 | 1 | Mínimo recomendado |
| 4 | 3 | 1 | Mesma tolerância de 3, com mais hardware |
| 5 | 3 | 2 | Ótimo equilíbrio |
| 6 | 4 | 2 | Mesma tolerância de 5 |
| 7 | 4 | 3 | Para ambientes grandes |
A conclusão prática é direta: ir de três para quatro nós não aumenta a tolerância a falhas do cluster, só a capacidade. Se o objetivo é resiliência, o salto que importa é de três para cinco.
O cluster de dois nós e o QDevice
Dois nós é a configuração mais comum em quem está começando, e é a mais problemática. A maioria de dois é dois, então a queda de qualquer nó deixa o sobrevivente sem quórum — e portanto sem poder ligar as VMs do que caiu. A alta disponibilidade que se esperava simplesmente não acontece.
A solução correta é o QDevice: um terceiro votante que não precisa ser um nó de virtualização. Uma máquina pequena, uma VM em outro lugar, um dispositivo modesto — basta que rode o serviço de voto e tenha rede para os dois nós. Com ele, o cluster passa a ter três votos, e a queda de um nó deixa dois: maioria, quórum, HA funcionando.
O erro que vemos no lugar disso é reduzir manualmente os votos esperados para que um nó só tenha maioria. Isso funciona como medida temporária durante uma manutenção conhecida, e é perigoso como configuração permanente: você desligou justamente a proteção contra split-brain. Se o problema era rede, e não nó morto, os dois lados vão agir.
Fencing: por que o nó reinicia sozinho
Quando um nó perde quórum, o cluster precisa de certeza de que ele não vai continuar mexendo nas VMs — senão não é seguro ligá-las em outro lugar. Essa certeza se chama fencing.
O Proxmox faz isso por autoexclusão via watchdog. O mecanismo é elegante: enquanto o nó tem quórum, ele alimenta periodicamente um temporizador. Se perde o quórum, para de alimentar, e o temporizador expira e reinicia a máquina. O nó se remove do jogo sozinho, sem depender de nenhuma ação externa — o que é essencial, porque um nó com problema de rede não pode ser contatado justamente por quem precisaria desligá-lo.
Daí vem a resposta à pergunta do começo. O nó reiniciou porque ficou isolado do cluster por tempo suficiente. E a causa raiz, na esmagadora maioria dos casos que investigamos, é rede — Corosync compartilhando link com migração ao vivo ou com backup, perdendo pacote quando o link satura.
Uma consequência importante: o fencing só é acionado quando há HA configurada para as VMs. Um nó sem VMs em HA que perde quórum fica isolado, mas não se reinicia.
Ler o estado do cluster antes de agir
Em incidente, três informações resolvem a maior parte do diagnóstico, e vale saber obtê-las antes de precisar:
- O estado do quórum e a contagem de votos, que diz imediatamente se este nó tem autoridade ou não.
- A saúde dos anéis do Corosync, mostrando se os nós estão se vendo e se há retransmissão de pacote. Retransmissão crescente é o sinal precoce de que o próximo incidente já está a caminho.
- O log do serviço de cluster, onde aparece o momento exato da perda de vínculo e a razão.
Duas orientações de conduta. Primeiro: não reinicie nós no escuro. Reiniciar um nó saudável durante uma perda de quórum pode transformar um problema de rede em perda de maioria de verdade. Segundo: se o cluster está sem quórum e as VMs estão rodando, elas continuam rodando — o storage local não para porque o Corosync parou. Você tem tempo para diagnosticar; a pressa é que costuma piorar a situação.
Manutenção sem provocar incidente
Boa parte dos incidentes de quórum é autoinfligida durante manutenção. O roteiro que evita isso:
- Coloque o nó em modo de manutenção antes de mexer nele, para que o HA mova as VMs de forma ordenada em vez de reagir a uma queda.
- Um nó por vez, sempre. Em cluster de três, dois nós em manutenção simultânea significam cluster sem quórum.
- Confirme o quórum antes de começar o próximo. Nó que voltou não é o mesmo que nó que voltou e reingressou no cluster.
- Cuidado especial com atualização de switch ou firmware de rede. É o momento de maior risco, porque afeta todos os nós ao mesmo tempo. Se possível, faça com as VMs de HA temporariamente fora de HA.
- Verifique a saúde do storage antes de devolver o nó ao cluster — em Ceph, espere a recuperação terminar antes de tocar no nó seguinte.
O nó que não volta
Quando um nó reinicia e não reingressa, o roteiro de verificação, em ordem de probabilidade:
- Rede. A interface subiu? O bond está completo ou com um link só? Depois de troca de hardware, o nome da interface mudou? Esta é a causa em quase todos os casos.
- Hora. Divergência grande de relógio impede o Corosync de estabelecer vínculo. Servidor de tempo funcionando é requisito, não recomendação.
- Certificados e chaves do cluster, que podem ficar inconsistentes após restauração de backup do nó ou reinstalação.
- Firewall, se alguma regra nova bloqueou a porta do Corosync.
- Serviço de cluster com falha ao iniciar, cuja mensagem no log costuma ser específica e útil.
Se o nó está definitivamente morto e não vai voltar, remova-o do cluster formalmente. Nó morto continua contando como voto esperado, e isso mantém a barra da maioria mais alta do que precisa: um cluster de três com um nó morto e não removido exige dois votos dos dois nós restantes, ou seja, tolera zero falhas adicionais. E nunca reintroduza uma máquina com o mesmo nome e endereço sem antes remover a entrada antiga — o cluster vai tratar como conflito.
Erros comuns
- Cluster de dois nós sem QDevice, esperando HA funcionar.
- Reduzir votos esperados permanentemente em vez de adicionar um votante.
- Corosync no mesmo link da migração ao vivo, causando reinício de nó saudável.
- Ir de três para quatro nós esperando mais tolerância a falhas.
- Manutenção em dois nós ao mesmo tempo num cluster de três.
- Nó morto não removido, mantendo o voto esperado alto.
- Servidor de tempo ausente ou divergente entre nós.
- Reiniciar nós no escuro durante perda de quórum.
- Nenhum segundo anel de Corosync, deixando o quórum na mão de um switch.
Onde a Solvefy/Cloud entra
Como parceiros oficiais Proxmox, essa é a área em que mais fazemos correção de desenho: clusters de dois nós vendidos como alta disponibilidade, Corosync disputando link com backup, nós mortos que ninguém removeu. Revisamos a topologia de votos, implantamos QDevice ou o número de nós adequado, separamos a rede de cluster, configuramos o segundo anel e documentamos o procedimento de manutenção para que a sua equipe não provoque o incidente que quer evitar. Também oferecemos sustentação contínua, com monitoramento do Corosync para agir antes do reinício.
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